Ontem assisti a minissérie Haru e Natsu da NHK. Ouvi falar de Haru e Natsu pela minha avó, uma Oba-san viciada em novelas japonesas. Tenho muito interesse por tudo o que diz respeito a imigração nipônica no Brasil, já que sou fruto dessa troca de culturas, e mesmo não gostando de doramas/novelas, achei que valia a pena dar uma chance a Haru e Natsu.
A minissérie conta a história de duas irmãs que perdem contato durante 70 anos por conta de cartas que não chegaram a seus destinos. Haru, a irmã mais velha, vem para o Brasil com a família para trabalhar como dekassegui em fazendas de café, com o intuito de voltar ao Japão depois de 3 anos. Já Natsu permanece no Japão, impossibilitada de vir ao Brasil com a família por ter contraído tracoma, e com a promessa de voltar a ver seus pais e irmãos em breve. Infelizmente, o sonho de voltar com glória a pátria-mãe acaba não se realizando para Haru e sua família, como não se realizou para a maior parte dos japoneses que desembarcaram no Brasil naquela época, e Haru e Natsu acabam afastadas por anos sem notícias uma da outra. Não vou contar os detalhes da história. Para quem interesse, aqui a página da Wikipédia da série, e aqui uma matéria sobre o assunto.
Haru e Natsu foca muito na história de Haru no Brasil, o trabalho árduo e quase escravo nas fazendas de café, com pagamento escasso e condições de vida precárias. O preconceito dos brasileiros em relação aos nipônicos (e vice-versa), principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, o constante desejo de voltar a ver o Japão uma vez mais da família de Haru, e a ascensão da cultura nipo-brasileira. Essa série é fantástica para quem não conhece muito a história fantástica da imigração japonesa no Brasil, e deseja se aproximar um pouco mais do tema.
Não, a série não é perfeita. Há todo o dramalhão de novela e as interpretações caricatas de alguns personagens (principalmente brasileiros), mas que não desmerece seu grande valor, abordando um assunto que gostaria que fosse mais lembrado: o grande esforço dos nipo-brasileiros para chegarem onde chegaram. Quando a maior parte de nós nasceu, o Japão já era uma grande potência mundial e os nipo-brasileiros uma comunidade muito bem estabilizada. Muitos esquecem que o que os levou aí não foi a "inteligência asiática nata", ou alguma vantagem milagrosa que saiu sei-lá-de-onde, mas o sacrifício feito por nossos pais, avós e bisavós, que trabalharam tanto quanto qualquer outro imigrante no Brasil para que hoje tenhamos a qualidade de vida que temos. Foi difícil para a maioria dos imigrantes, que chegaram sem dinheiro ou recursos, e os japoneses não são exceção.
Chorei 20 litros de lágrimas vendo essa minissérie. Na verdade, chorei 5 horas seguidas durante praticamente os 5 capítulos inteiros. Como mestiça de pai japonês e mãe brasileira, tendo sido criada por uma rígida Oba-san nipônica, não pude deixar de reconhecer nessa série partes da história da minha própria família, e que com certeza corresponde a fragmentos da vida de tantas outras famílias nipo-brasileiras. A série trata inclusive de assuntos como os primeiros casamentos entre japoneses e brasileiros e os preconceitos que existiam contra essas uniões. Preconceitos esses que eu mesma pude presenciar durante a infância e que me tirou lágrimas ao ver serem representados em uma série de TV.
Fico muito feliz e emocionada em reconhecer tantos elementos da minha própria origem sendo contados em formato de série.Tenho muito orgulho de ser nipo-brasileira, de ser mestiça. Muito orgulho de ter sido criada entre duas culturas tão ricas e fabulosas, que aprenderam uma com a outra e prosperaram juntas, e espero um dia me tornar uma pessoa digna o suficiente para honrar esses dois mundos espetaculares e que me deram tanto do que sou. Eu recomendo essa minissérie a todos! Só preparem os lenços de papel.

